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domingo, outubro 10, 2004

A Vila

M. Night Shyamalan é, na melhor das hipóteses, um galhofeiro que tanto goza com as personagens que cria como com os espectadores que assistem aos seus filmes. A Vila é o melhor exemplo deste comportamento imoral. O filme promete, o filme ameaça. A todo o momento, espera-se o pior. E, quando ele chega, temos o vácuo. Nada. Rigorosamente nada. Era tudo uma farsa. Não havia perigo. Não havia monstros. Ou, se quisermos, até havia. Não no bosque, mas sim para lá dele, onde está a Civilização. O bosque e as putativas criaturas que habitariam nele eram apenas um pretexto para afastar os habitantes da vila de qualquer contacto com o exterior, com os perigos da cidade, com a adoentada vida moderna, com os seus assassinos e psicopatas variados.
Não digo, porém, que o filme seja um excremento absoluto. Os actores são bons. A fotografia, embora decepcione um pouco – esperava um ambiente mais ao estilo de Sleepy Hollow – não é má de todo. O enredo, esse – em jeito de Utopia, o lugar perfeito, com vidas perfeitas, com relações perfeitas, onde a presença do Mal é rejeitada – parece-me excelente e indicado para nos alertar do perigo das ideologias. É ter em conta que a única personagem malévola no filme acaba castigada por não ser normal, por romper com a bonomia que reina na vila.
Agora, este tipo de enredo não pertence ao domínio do terror. E é esse exactamente o logro do filme: promete-se à audiência o ambiente próprio de um filme de terror e o que a audiência recebe são apenas breves momentos de susto, interrompidos por longas dezenas de minutos de puro tédio.
Pode-se dizer que um dos grandes elementos do medo é precisamente a antecipação, o crescendo do suspense. De acordo. Mas se esse contrato previamente estabelecido com o espectador é gorado na altura errada no filme (que é o que sucede em A Vila), o enredo perde-se completamente e o espectador sente-se traído. E mais traído ainda quando o Sr. Night Shyamalan aparece fugidiamente na película despreocupadamente a ler um jornal, com ar de desdém, enquanto os espectadores levam as mãos à cabeça a pensar no dinheiro que gastaram no bilhete para vir ver o filme. Não há direito.

3 Comments:

  • At 3:24 da manhã, Blogger Cirilo Marinho said…

    João, acabou de me poupar 15 euros (consorte e bebidas incluidas). E passe pelo Collateral, é excelente e cheio de estilo.

     
  • At 10:54 da manhã, Blogger JoaoSousa said…

    Caro Cirilo, obrigado pela proposta. Já ouvi boas críticas do Collateral. Devo ir vê-lo neste fim-de-semana.

     
  • At 1:26 da tarde, Blogger mr.vertigo said…

    Não concordo, caro João. E exponho os meus (ignorantes) argumentos.

    Tradução simples: é um filme sobre monstros, tal como «Sinais» era um filme sobre extraterrestres. Nada mais errado. Se é certo que podemos reduzir os Filmes – porque são Filmes aquilo que Shyamalan faz – a categorias tão básicas e redutoras como a de “filmes de monstros e aliens”, mais certo será que essa qualificação está completamente errada.
    Sim, é verdade. Admito-o. Muito do público (especialmente os desconhecedores da obra que Shyamalan prossegue e aqueles cuja ida ao cinema se reduz a comer pipocas ) é atraído para a sala por essa falsa promessa de suspense e assombramento. Mas não é disso – ou não apenas disso; corrijo, ou apesar disso – que os filmes de Shyamalan vivem e são feitos.
    Se no anterior «Sinais» os aliens serviam de pano de fundo para uma história sobre a perda e subsequente redescoberta da fé, nest’ «A Vila» os monstros são o pretexto para uma história de amor. História de amor, entenda-se, não no sentido vulgar da expressão. Mais correcto será dizer-se que é uma história sobre o Amor.
    É disto de que nos fala Shyamalan nos seus filmes. Não de historietas simplistas – por mais rebuscadas que sejam – mas sim de sentimentos: o Amor; a Fé, and so on.
    Sobre o Amor – este «A Vila» - mas não só. Também sobre a perda; sobre a esperança que se perdeu e subitamente se reencontrou num vilarejo perdido nos confins do tempo; sobre o ciúme; sobre a impossibilidade de amar e ser feliz; e sobre a coragem (ou loucura) de amar e não ser correspondido.
    E os monstros? Não há monstros? Há-os, que os há. Há monstros no passado e no presente dos anciãos; há monstros em cada casa (os segredos de que fala a personagem de Joaquim Phoenix); há monstros nas cidades cuja existência apenas alguns conhecem. Há monstros em fartura. É preciso é saber distingui-los.
    Quanto ao logro de que falas, ele é presença constante - para não dizer condição - nos filmes de Shyamalan. Tal como são presença constante - mão não condição - os irritantes cameos que o homem nos impinge. Está bem que, desta vez, apenas se vislumbra a cara do bicho num breve reflexo mas, pel'amor de Deus e de todas as alminhas, ò pá, ainda não chegas aos pés do Mestre...
    Abraço.

     

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